A Ocupação/Invasão da Reitoria na UnB

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Pensei em escrever esse post diversas vezes. Foi bom esperar. Assim pude ver todo o desenrolar da situação sem emitir opinião formada.

Confesso que não sou adepto aos meios utilizados pelos manifestantes para obter êxito em suas reivindicações. Entretanto, preciso desabafar que o clima que se sente dentro do movimento é esplêndido. Acho essencial à vida de qualquer um sentir o que senti ao ver aquele grupo de alunos, de classe média, em sua maioria, buscando alternativas próprias. Isso é super legal. Nunca poderei condenar o intuito. Nunca poderei condenar a movimentação, a busca por mudanças sociais imprescindíveis para o desenvolvimento pleno do país. Acredito no país, acredito em seus habitantes e continuo a crer na possibilidade de uma vida social melhor.

Claro, é impossível negar, principalmente agora, os frutos do movimento. Esse blog é um deles. A discussão que foi gerada pela ocupação não tem precedentes (pelo menos na minha curta vida universitária de quatro anos). Além disso, o reitor, corrupto ou não, renunciou, assim como seu vice. Sim, a ocupação fez o corpo universitário olhar para o estudante. Em geral, somos um corpo muito esquecido pela Universidade. Inclusive, já ouvi alguns professores dizerem que o problema da Universidade é a graduação, porque nela existem aulas presenciais e lá existem alunos.

Independentemente de tudo isso, não posso me calar quanto aos atos especialmente totalitários do movimento, que ao meu ver, deslegitimam o restante de seus atos. O primeiro ato, o de ocupar, é válido, pois os alunos enxergaram nele a possibilidade de chamar a atenção daqueles que podem alterar a situação na Universidade. O problema é o desenvolvimento do ato, que não permitiu qualquer diálogo entre as partes.

O reitor sequer foi totalmente investigado ainda. A denúncia é recente, não existem fatos que comprovem ilegalidade dos seus atos. Então, exigir que ele se retire para que a ocupação seja encerrada, é IMPOR uma ação. É não escutar o que o outro tem a dizer. É dizer que somente seus argumentos são os corretos. E, mais importantemente, é esquecer o que é democracia.

Sim, acredito que o reitor errou. Aliás, acredito que ele provavelmente incorre no crime de improbidade administrativa. Mas isso não cabe a nós julgar. A justiça existe para isso. É um poder constituído pelo Estado Democrático de Direito para definir se uma pessoa age em consonância ou não com o estipulado por lei. Julgar sem o uso do devido processo legal é incoerente com o discurso de democracia. E mais, é impedir a utilização das instituições que são democraticamente instituídas.

Pausa básica: o argumento principal dos ocupantes é de que a justiça e o restante das instituições são inertes, que elas não funcionam como deviam, o que gera uma necessidade de agir de forma extrema. Aí está talvez meu maior ponto de discordância com o movimento.

Volto a dizer, admiro o espírito reivindicante, admiro a capacidade de movimentação e tudo o mais, mas as instituições democráticas devem ser construídas. Elas se respaldam em uma constante adequação às necessidades sociais. Logo, se uma instituição parece fraca, como alegam que o poder jurisdicional está, deve-se buscar seu fortalecimento e não jogá-lo às favas para buscar resolução própria.

O intuito democrata é permitir que todos possam cooperar para a construção de uma sociedade igualitária. Nela, é importantíssimo que estejamos aberto ao diálogo. E dialogar, necessariamente, significa estar disposto a estar errado, a ser convencido. Agir de forma a impor sua própria opinião, sem admitir a hipótese de estar errado, nos leva à simples inferência de que a força é o motor da validade. Num Estado Democrático de Direito, isso não existe. A força é prerrogativa daquilo que é legítimo, não o contrário.

Enfim, a restrição ao movimento, não se enquadra no seu intuito. Ele até parece-me louvável. O problema é impor que todos enxerguem as coisas do mesmo jeito. Essa unicidade, essa incapacidade de reflexão(pois reflexão supõe a possibilidade de estarmos errado) é o que condena o movimento. Acho que os ocupantes deveriam ler mais Popper.

Out.

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