Vaidade e democracia

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Desconfio dos engajados de minha geração. Vejo em muitos um quê de boa vontade e disposição para a mudança, mas também vislumbro uma adesão incondicionada e irrefletida a bandeiras e palavras de ordem, proclamadas em panfletos partidários e por lideranças bravias.

O decálogo básico do jovem revolucionário é repetido. O ódio às demais colorações é um pressuposto. Assim, militam, carregam bandeiras, vaiam os adversários. Trata-se de uma geração que cresceu sendo chamada de indiferente por seus pais, frustrados com a insuficiência da redemocratização na construção de um novo país.

Em resposta a essa acusação, agem. Fazem isso por mero juízo estético. É bonito e pega bem “dar a cara a tapa”. Se for pra caçar um corrupto, então, é possível virar herói nacional (já elegemos um presidente engomadinho que tinha esse discurso, lembram?). Não enxergam que estão se colocando à disposição de jogos muito mais amplos de poder e não menos estéticos.

A supervalorização pela mídia das recentes ocupações da UnB refletem o que acabo de dizer. Os jovens unversitários, a princípio vistos com desconfiança, passaram a heróis da nação, lutadores incansáveis contra a corrupção e a apropriação dos espaços públicos por particulares.

A imagem é ótima. Partidos das mais diversas nuances não hesitaram em apoiar os jovens ocupantes. Nos bastidores, se ouviam previsões sobre o futuro daqueles jovens. Nos discursos espalhados pelo campus, a tônica da “responsabilidade pela sua história” era muito reforçada. Diziam: Quando lhe perguntarem, daqui a alguns anos, onde você estava em 2008, você vai dizer que não fez parte daquele movimento?

Os abutres pairam sobre o movimento estudantil. Buscam ali a renovação de seus quadros. Novos rostos, chancelados pela estampa do heroísmo conferido pelos semanários nacionais. A política brasileira tem vivido desses mitos e factóides. Personagens construídos, filtrados e temperados ao sabor da ocasião. Para chegar ao poder, vale tudo.

O que mais se deveria esperar de novas lideranças políticas não se verificou naqueles administradores da ocupação. A coerência de práticas e idéias ainda está longe de ser o paradigma da política brasileira. Pregam a democracia, mas aceitam o vale-tudo quando percebem que podem fazer prevalecer seus pontos de vista. Justiça sim, mas só quando funciona do jeito que queremos…

Esse é um velho jogo. Foi ensinado por Maquiavel. Mas quando os fins justificam os meios numa democracia, é melhor que os cidadãos comecem a se preocupar.

Tudo indica que, mais uma vez, a vaidade humana delineará os limites da política.

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Uma resposta to “Vaidade e democracia”

  1. guilhaski Says:

    VaLidade e democracia?

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