Créditos obrigatórios de Extensão: a Constituição levada a sério

by

A Secretaria de Comunicação (SECOM) da UnB informa:

“Outra meta do DEX durante a gestão pro tempore do reitor Roberto Aguiar é incluir 10% de créditos de extensão nos fluxos curriculares dos novos cursos abertos pela UnB. ‘O Plano Nacional de Educação prevê, em seu artigo 23, a implementação progressiva de no mínimo 10% de créditos de extensão em cada fluxo. Discutiremos a inclusão disso na expansão e no Reuni’, conta o decano”.

Sou favorável à inclusão dos 10% de Extensão obrigatórios no fluxo de todos os cursos.

Na Faculdade de Direito da UnB, há uma disciplina obrigatória (Estágio 3) voltada para a Extensão: o aluno escolhe um projeto de Extensão e participa durante um semestre letivo. São 4 créditos, de 256 requisitados para que o aluno se forme. Ou seja, 1,56%.

Na matéria da SECOM, o professor Alexandre Bernardino Costa, Decano de Extensão pro tempore, afirma que créditos obrigatórios de estágio, já existentes em vários cursos, poderiam passar a ser registrados como de extensão. Estranho: estágio contar como extensão? Não sei bem a que tipo de estágio o prof. Bernardino – que é da FD – se refere, mas não conheço nenhum, no âmbito do Direito, que possa ser equiparado à prática extensionista. Talvez entendamos extensão universitária de maneiras diferentes.

10% dos créditos do curso não seriam demais para a Extensão? Não. A Constituição Federal de 1988 estabelece, no art. 207, que “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão“.

A extensão sempre foi a prima pobre do ensino e da pesquisa: é realizada por poucos alunos e pouquíssimos professores, recebe menos recursos, não é considerada na avaliação sobre a qualidade dos cursos… O princípio constitucional explícito da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, para ganhar efetividade, necessita que as atividades de extensão, tradicionalmente executadas de modo diletante e apenas por pequena parcela dos corpos docente e discente, passem a ser encaradas por todos com a mesma seriedade com que o ensino e a pesquisa são (ou deveriam ser…) tratados.

O projeto constitucional para a universidade é um projeto democrático que restará notoriamente irrealizado, enquanto a extensão não for plenamente incorporada como aspecto indispensável da atuação acadêmica de cada aluno e professor.

—————————————————————————————

Como já disse, não considero que estágios em geral (talvez haja exceções) possam ser equiparados à atividade extensionista. Créditos obrigatórios de Extensão, portanto, são só 4 na FD. É preciso, pois, reformar o fluxo da Faculdade de Direito da UnB, para adequá-lo ao que dispõe o Plano Nacional de Educação e, sobretudo, a CF/88.

Para tanto, será necessário criar várias disciplinas obrigatórias destinadas à Extensão. A criação dessas disciplinas envolve algumas questões:

– Não se deve aumentar o número total de créditos obrigatórios do curso, nem o número mínimo de créditos (entre obrigatórios e optativos) exigíveis para a sua conclusão. O aluno de Direito já tem de fazer em média 25,6 créditos por semestre, para conseguir formar-se em cinco anos, e dos 256 créditos exigidos, 242 correspondem a disciplinas obrigatórias. Na minha opinião, é preciso manter o total de créditos exigidos e diminuir a proporção de disciplinas obrigatórias (inclusive, mas não somente, para adequar o fluxo ao Regimento Geral da UnB, segundo o qual a grade curricular deve ter no máximo 70% das disciplinas como obrigatórias). Somar mais 20 créditos de extensão a toda essa carga já existente tornaria muito difícil ao aluno fazer estágios, participar do Centro Acadêmico, de grupos de pesquisa, de atividades culturais, de aproveitar ao máximo, enfim, outras oportunidades à disposição na universidade.

– Mas, se é preciso ampliar para 10% os créditos de Extensão sem mexer no número de créditos total do curso, então será necessário retirar da atual grade pelo menos 20 créditos? Sim, é isso mesmo. Quais disciplinas retirar? Isso é algo a ser pensado e discutido, mas creio que deve ser premissa nessa questão, e em qualquer outra que envolva adicionar novas disciplinas, sob pena de sufocar o desempenho e a capacidade criativa dos alunos.

– Como seriam implementados esses 10%? No caso da Faculdade de Direito, corresponderiam a cerca de 26 créditos obrigatórios de extensão.Na minha opinião, cada disciplina de extensão deve ter seis créditos. Seriam 4 pela participação semanal na “atividade-fim” do projeto, e 2 para reuniões semanais destinadas à discussão sobre o seu andamento e reflexão prática e teórica (as aspas ali atrás são porque, para mim, essa reflexão é também atividade-fim, visto o perfil acadêmico e formativo da extensão). Nesse esquema, o aluno passaria de 2 a 2 anos e meio fazendo extensão (podendo o aluno escolher o projeto em que se engajaria, e eventualmente participar de mais de um ao mesmo tempo, de forma que seria possível cursar mais de uma disciplina de Extensão ao mesmo tempo).

– Que tipo de projeto seria considerado de extensão? Essa é uma boa pergunta. A Faculdade de Direito precisa fazer um debate sério sobre o assunto, e chegar a algumas diretrizes – que devem ser flexíveis. Não é ruim que existam várias concepções sobre extensão e formas discrepantes de realizá-la. Há, também, diversas visões sobre como pesquisas devem ser desenvolvidas (vide este post, por exemplo), mas isso não impede que existam critérios institucionais mínimos para definir se determinada atividade é pesquisa. O mesmo se aplicaria à extensão: os créditos obrigatórios devem servir à criatividade e à participação plural, e não à imposição do conceito de extensão de qualquer linha teórica.

Anúncios

5 Respostas to “Créditos obrigatórios de Extensão: a Constituição levada a sério”

  1. Veritasserum Says:

    JT, Discordo que estágio não seja extensão. É certo que grande parte das experiências de estágio são estéreis à inovação e a pesquisa que é promovida em setores da Universidade, mas isso não quer dizer que o estágio não seja uma forma de confronto do ensino/pesquisa com a comunidade que cerca o pensamento universitário.
    Pelo contrário, o contraste que é gerado no ambiente de estágio demonstra grande parte das tensões que realmente existem na aplicação prática dos conceitos que estudamos às realidades do dia-a-dia.
    Extensão não é só estágio, mas estágio também é uma forma de extensão.
    Talvez a experiência de estágio fosse melhor se as universidades efetivamente fiscalizassem os contratos que são firmados e disciplinas como estágio 5 não fossem meras homologações de relatórios.

  2. Gaby Says:

    Faço parte de um projeto de extensão a 2 semestres, qual departamento eu vou para recorrer aos meus direitos?

    • Luana Teresa Says:

      Bomd ia, Gaby. Me chamo Luana. Pesquisei no google algumas pessoas que estudam direito na UNB, pr aver se alguém me ajuda! Estou querendo saber se alguém aqui já foi aluno especial da Pós de Direito na UNB. Meu e-mail é luana_teresa@hotmail.com
      Se alguém puder me ajudar, agradeço!!!

  3. Sanderson Says:

    Pois então rapaz, pensa direito sobre essa questão da extensão. Conheço pessoas na UnB que vão a locais onde nenhum projeto extensionista vai e suas pesquisas colaboram com comunidades bem distantes, no entano, por questões formais isso é “apenas pesquisa”.
    O estágio 1 em Letras Espanhol é gratuito e para alunos de satélites, sem condições de pagar o curso, mas isso não conta como extensão.
    Terceira questão a se pensar é: os professores e alunos vinculados a um projeto de extensão ganham várias obrigações e têm que ter vínculo formal com um determinado Decanato, mas qual a contrapartida, nesse caso, muitos preferem manter os seus projetos “apenas como pesquisa”.

  4. telesforo1988 Says:

    Gaby, vá ao seu departamento… Fale com o coordenador do seu projto de extensão. Se ele não souber como fazer, fale com o coordenador de extensão do seu departamento. Se ele não souber, vá ao decanato de extensão, que lá certamente vão saber te informar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: