Ser e Universidade

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Já que se entrou nesse tom confessional, eu não vou resistir a ir na mesma toada.

Quando eu tinha nove anos de idade, ouvi um professor falar, num vídeo sobre um projeto de extensão: “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”*.

Eu sempre achei a frase bonita, pela sua falta de sentido. Um completo nonsense que me parecia belo.

Os anos passaram e eu não me esqueci da frase. Desconfiava que aquele sem-sentido fazia sentido.

Até que um dia, no começo do ano passado, escrevendo um artigo sobre um outro projeto de extensão, aquela frase me voltou à cabeça como um bumerangue e eu de repente a compreendi – a tal espiral hermenêutica funcionou, ao longo de um tempo de dez anos nesse caso… Pensando nessa frase, escrevi o seguinte:

“(…) a universidade deve ser o lugar da utopia. Eis uma frase que soa paradoxal: como um lugar poderia ser o lugar do não-lugar? A contradição, no entanto, é apenas aparente, porque ‘a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar’. A idéia de universidade funda-se no compromisso com a diversidade de pontos de vista, de pensamentos, de saberes, de modos de ser e de agir. Nela, não pode haver espaço para a intolerância e para o pensamento único; devem proliferar perspectivas diferentes e opostas, que permitam o conhecimento do mundo em sua inesgotável complexidade. Por isso, a universidade é o lugar de todos os lugares, inclusive daqueles que não existem. (…) a universidade tem a função de imaginar, de pensar o que não existe, o não-lugar, o outro, o novo. Os grandes fins da universidade são reproduzir e criar conhecimentos; não há criação sem imaginação, por isso a universidade é local privilegiado para a formulação de utopias e para a reflexão sobre elas.”

Isso é o que sempre me atraiu pra a universidade, e continua a me atrair. A mim e a tanta gente que se sente angustiada, alienada, amputada, anulada, quando sente que está apenas repetindo e reproduzindo idéias, estruturas, modos de vida. Reproduzir não necessariamente é ruim; ninguém cria nada do vácuo. O problema é quando o sujeito se deixa dominar por essa repetição, e perde completamente o que pode haver de autêntico, singular e criativo no que faz – inclusive, ou fundamentalmente, de si próprio (fazer qualquer coisa, afinal, é fazer qualquer coisa de si próprio).

Aí está a beleza da universidade, o que há de estimulante nela: um ambiente fundamentalmente voltado à compreensão, à imaginação, à criação. Não só intelectual, mas social, afetiva, cultural, política…

Alguém pode dizer: mas essa universidade não existe! E aí essa pessoa sacaria mil argumentos apontando como o ambiente universitário, o da UnB por exemplo, não tem, em geral, nada a ver com isso que falei. Tratar-se-ia, pelo contrário, de um ambiente de repetição e reprodução como qualquer outro, de uma instituição feita de mediocridade e pequenez.

Respondo que é verdade que existe muita mediocridade e pequenez na universidade. Mas, isso é apenas a circunstância, talvez até hegemônica, contra a qual nos chocamos, na construção do nosso projeto de universidade. E a universidade, pra mim, é o projeto que vivemos dela.

Eu não sou um maluco solipsista que acha que as coisas são o que eu finjo que elas sejam. A graça da UnB, pra mim, e o motivo da minha obsessão (pra não usar um termo piegas…) por ela, é que descobri, logo quando cheguei aqui, que esse projeto de universidade não era só meu. A cada semestre que passo na UnB, eu conheço mais pessoas e vejo mais grupos se construindo com essa visão, engajados nesse projeto. Esse projeto coletivo deixa de ser um delírio, e passa a ser, ou constituir-se como, a universidade que nós efetivamente vivemos. É a universidade que estamos inventando, criando, construindo; e aí está a graça toda, aí está a universidade que estamos experimentando. É por essa Universidade de Brasília que vou me graduar.

“Estejamos unidos, estejamos reunidos, e sempre, sempre em movimento”.

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5 Respostas to “Ser e Universidade”

  1. Sanderson Says:

    Aspirante a advogado perfeito, usa a mesóclise (ahahahaha). No entanto, a idéia é muito boa, só não gosto muito de alguns jargões pós-modernos, mas como você defende a pluralidade de pensamentos, deixa eles aí.

  2. Sanderson Says:

    Ah sim, você já leu o plano orientador da Universidade de Brasília? Tem muito a ver com essa idéia de universidade que você fala.

  3. telesforo1988 Says:

    O que é jargão pós-moderno no texto?

    As influências (conscientes ao menos) dele são em geral existencialistas, não pós-modernas.

    Sobre o plano orientador, não sei se já li. Já li alguns planos da UnB, não me lembro exatamete quais, e não sei se li o plano geral… Mas, sim, no papel ao menos têm a ver com o que eu falo. Já li um pouco de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, inspirações permanentes pra a UnB e pra mim também.

  4. Sanderson Says:

    Me referia a esse trecho “a universidade é o lugar de todos os lugares; a universidade é o lugar do não-lugar”, de fato, não posso lhe dizer se essa idéia de não-lugar, não-ser, não-qualquer coisa é fruto do existencialismo, mas é muito comum nos pós-modernos.
    Só fiz a ressalva de brincadeira mesmo, ainda que eu não aprecie nem um pouco o uso de certo “termos”, aquele parágrafo citado está bem pós-moderno também. Me refiro a uma forma de argumentação que se usa muito em Deleuze, Derrida, Guatarri, etc. Confesso que não gosto muito, mas o seu texto está bem coeso e como você mesmo diz, parece um pouco “sem-sentido”, mas a idéia está muito clara e coerente.

  5. Sanderson Says:

    Quanto ao plano orientador, eu me referia ao plano inicial da UnB, que foi publicado na época do plano original, não sei o ano exato da publicação, mas sei que foi reeditado no ano passado, pela Editora da UnB e distribuído aos professores, foi quando tive acesso a ele e o li inteiro.
    Tem um outro livro, do professor Roberto Salmeron, que fala da UnB no período 1964-1965. Nele também se fala muito da Universidade como um local de pluralidade.

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