Alternativas à partidocracia – reflexões a partir do movimento estudantil

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Li hoje um texto bastante lúcido (disponível aqui) que abordou, dentre outras questões, os desafios que se põem à construção do movimento estudantil autônomo na UnB, independente de partidos políticos.

O grande desafio ao movimento estudantil autônomo é conseguir ter conteúdo, ser politizado, formular uma visão bem articulada de sociedade e de universidade, e a partir dela uma pauta crítica e propositiva concreta. O justo repúdio à relação degenerada com partidos políticos é necessário, mas não basta: pode levar à desmobilização e à falta de aprofundamento do debate político, se significar a incapacidade de construção de um coletivo unido em torno de uma plataforma política.

É claro que diferenças sempre estarão presentes em qualquer grupo e o enriquecem; mas, por outro lado, se não houver uma visão básica de universidade compartilhada pelo grupo, ele simplesmente não tem identidade política. Não, ao menos, uma identidade política que o permita construir e gerar debate público – e portanto que o permita exercer a melhor política democrática.

No movimento estudantil que idealizo, haveria não um, mas vários grupos autônomos, com visões distintas sobre a universidade (porque há várias correntes de opinião entre os estudantes), confrontando suas visões, o que poderia se traduzir em alianças ou disputas programáticas conforme a questão. Mas isso parece ser utópico hoje*. O autonomismo parece conduzir à despolitização, e a politização, por outro lado, à redução da independência com relação a partidos…

É claro que não há mal na convergência ideológica entre grupos autônomos e partidos; um grupo independente politizado necessariamente irá convergir com partidos sobre certas causas, empunhar algumas bandeiras em comum. O problema é quando essa convergência deixa de ser fruto da autonomia do grupo, e passa a ser refletida ou transmitida a partir do partido. Infelizmente, é isso que tende a ocorrer. Parece que a construção de uma pauta política aproxima os grupos inicialmente independentes aos partidos, o que traz ao movimento (não necessariamente deveria trazer, mas empiricamente parece trazer) alguns de seus vícios: sectarismo, burocratismo, estruturas de poder que beneficiam as pessoas menos independentes e que servem às cúpulas partidárias, etc.

Esta pergunta não se aplica somente ao movimento estudantil, penso que vale hoje para qualquer movimento sociopolítico: como fazer política – ou seja, engajar-se num projeto de transformação social – à margem da partidocracia?

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Essa pergunta me leva a pensar uma que a antecede: por que fugir da partidocracia? O que há de errado com os partidos?

Não responderei a essa pergunta neste post; começarei, no entanto, a esboçar algumas idéias a respeito.

Em palestra** proferida ontem na Faculdade de Direito da UnB, o professor Giacomo Marramao, da Università Roma Tre, comentou que não é de se estranhar o reduzido interesse dos jovens pela política: ele próprio, filósofo de formação gramsciana, afirmou interessar-se cada vez menos pelo assunto. A declaração, vinda de um gramsciano, gera perplexidade. Como pode um intelectual disposto a pensar a práxis afirmar que se importa cada vez menos com a política?

1. Marramao começa por observar que a linguagem da política continua a ser hoje, em geral, a mesma do século XIX. A realidade social é bem outra, bastante mais complexa; como pretender compreendê-la e agir nela a partir de visões (paradigmas, se vocês quiserem) de dois séculos atrás?

Eis aí a primeira condicionante, talvez a mais importante, da repulsa ou indiferença generalizada que se verifica – especialmente entre os jovens – com relação ao discurso político. Parece que ele, aos olhos do senso comum, oferece soluções sem sentido para problemas inexistentes ou que precisariam ser compreendidos e redefinidos de formas mais complexas e adequadas às mudanças por que passou e passa a sociedade. Essa velha linguagem seria incapaz de enxergar tudo o que há de novo na sociedade, e por isso seria hoje de pouca valia.

A política precisaria então ser repensada e redescrita com novas categorias e uma nova linguagem. Não é à toa que Boaventura propõe um novo senso comum para a política, o direito e a ciência.

Mas, de onde sairá esse novo senso comum, quem criará essa nova linguagem?

Para Marramao, não cabe à Filosofia dar lições à política. Pretensões filosóficas normativas demonstram, na hipótese mais benevolente, ingenuidade política. Como legítimo gramsciano, Marramao afirma que à filosofia cabe somente pensar as conseqüências da nossa prática. Estou parcialmente de acordo. Concordo com o diagnóstico sobre a ingenuidade (no mínimo política) do normativismo filosófico. Porém, creio que neste caso a Filosofia (e todo o pensamento social) tem uma grande contribuição a dar à política. Não de forma normativa, mas compreensiva – o que não deixa de ter uma carga normativa implícita: não se trata de um normativismo prescritivo, e sim de um normativismo constitutivo – é que a linguagem e a compreensão constituem de outra maneira o sujeito e sua realidade, e portanto têm poder normativo sobre como ele pensará e agirá.

Em síntese: não será a Filosofia (ou as Ciências Sociais) que definirá os termos desse novo senso comum; mas a compreensão filosófica e científica do novo senso comum certamente é também constitutiva, em parte, do senso comum que se busca compreender (o conceito de reflexividade, de Anthony Giddens, é bem apropriado aqui). Nesse sentido, é missão também da Filosofia e das Ciências Sociais a reinvenção da política. A elas – a nós – cabe buscar enxergar esse novo senso comum, essas novas formas de organização social, os novos discursos e as novas práticas políticas. Enquanto nosso pensamento estiver concentrado em analisar e revolver somente o velho, creio que não se poderá reiventar plenamente a política. É preciso redescrever (Rorty) o antigo e estar atento ao novo.

Mas, o que há mesmo de errado com os partidos? Comecei com uma reflexão talvez exageradamente abstrata sobre um ponto fundamental: sua linguagem – o que significa dizer: sua compreensão da realidade social. E afirmo que cabe à filosofia e à ciência enxergar novas formas de organização política e de discurso que fujam a esse anacronismo. Fica para posts futuros, porém, a reflexão sobre que novas formas poderiam ser essas.

* Embora não custe lembrar que o não de ontem é o talvez de hoje e o sim de amanhã, conforme explica o professor Paul Silbert. O tempo permite que um sistema restrito (e portanto que se apresentava fechado para o observador do passado) abra-se para possibilidades antes inexistentes, configurando-se a transmutação do não em talvez e possivelmente em sim. A concepção do materialismo utópico e trialético de Silbert, que descreve os sistemas como restritos e não como fechados, torna sua teoria apta, mais do que teorias sistêmicas binárias e do que as ingenuamente idealistas, para lidar com a complexidade do real, entendido sempre como campo de possibilidades (segundo a apropriação criativa que faz de Boaventura de Sousa Santos) restrito, mas – ou por isso mesmo – aberto.

** O tema da palestra foi “O 11 de setembro e a responsabilidade da Filosofia”. As referências ao que disse o prof. Marramao são todas feitas apenas com base na minha memória, por isso talvez não retratem com fidelidade precisa o que ele falou, ainda mais considerando que jamais li qualquer escrito desse autor.

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8 Respostas to “Alternativas à partidocracia – reflexões a partir do movimento estudantil”

  1. Paulo Rená Says:

    João, acho que o procedimento para criação de partidos políticos é um grande entrave à representação democrática dos interesses sociais.

    São chocantes as exigências para a criação de um partido, o que, no meu modo de ver, é extremamente relevante para que haja uma “classe política”, políticos profissionais, quem pensam os cargos de agentes políticos como fonte de renda/poder, e não como encargo público.

  2. André Gomes Says:

    Eu discordo, Rená. Ainda que fosse fácil criar um partido, não haveria criação de muitos partidos que representassem melhor os interesses na prática, somente o movimento de fusão e separação entre partidos seria mais dinâmico. Concordo, no entanto, que a instabilidade de formas partidárias tende a ser melhor para a representação de interesses, ao evitar o esmagamento de minorias dentro de um partido.

    Considerando o ambiente complexo da política, acho que a atividade exige, sim, profissionalização, no melhor sentido, com habilidades e conhecimentos específicos. Mas isso não significa diminuição em si da representatividade do poder.

  3. Alexandre Says:

    João,
    seu texto, assim como o que o inspirou a escrever, discutem bem essa questão de pluralidade relativista poder gerar uma apolitização imobilista.
    Viver em um mundo isento das grandes narrativas realmente pode limitar a intervenção social, pois não há uma meta-utopia geral que organize a política.
    Ou melhor, sobra a democracia, como uma grande narrativa que tenta ser plural e aberta. Acabamos levados pelo seu texto a nos perguntar: democratizar para quê?
    Vejo, no meu próprio discurso, uma certa adoção da pluralidade e da democracia como um bem em si, o ponto além do qual o relativismo não deixa avançar.
    Às vezes não sei bem o que fazer com essa consciência, mas normalmente penso que alguns de nós querem implantar outras grandes narrativas (como o socialismo ou o liberalismo), mas outros estão mais ligados a simplesmente manter abertos os canais de mudança, para ao menos evitar que uma utopia totalizante qualquer mate a diversidade em nome de uma justiça transcendente.
    Acho que isso seria imobilismo apenas quando negasse a legitimidade dos movimentos, o que não é normalmente o caso.
    Mas certamente não é cabível assumir uma função executiva sem que as várias pessoas se unam por algum ideal comum, para além de ocupar os postos de comando.
    E talvez aí esteja um dos limites dos partidos atuais (que, por acaso, já não são mais os partidos do século XIX, ao menos nesse ponto), para as suas próximas reflexões.
    Quando o esvaziamento das utopias faz com que o único projeto do partido seja se manter, que função democrática eles desempenham?
    Abraço,

  4. Jaqueline Says:

    É, talvez o conceito que mais mereça atualização no contexto político seja o conceito de poder. O que é o poder no sistema democrático, que não se resume às maiorias? E aí como ficariam as representações? Será que se aproxima do que Foucault dizia, que falar pelos outros é uma indignidade – “não existe mais representação, só existe ação”? Será essa a atualização necessária aos partidos, no sentido de nao mais representarem, vazio, mas agirem? Eu acho que me distancio da política porque tenho achado que os meus representantes nao estao falando por mim, e acho que tenho me aproximado de outra política, na qual, embora minha voz nao seja ouvida por muitos, os poucos diálogos que tenho feito têm sido mais profundos e produtivos. Isso pode ser uma máscara também, eu posso estar me enganando assim, achando que isso é política quando não é e estou é fugindo mesmo.

  5. juventudeptdf Says:

    Gostaria de mencionar um trecho do seu texto que, no meu entedimento, resume os pressupostos do seu texto:
    “Comecei com uma reflexão talvez exageradamente abstrata sobre um ponto fundamental: sua linguagem – o que significa dizer: sua compreensão da realidade social. E afirmo que cabe à filosofia e à ciência enxergar novas formas de organização política e de discurso que fujam a esse anacronismo.”

    Ora, o grande problema do seu questionamento aos partidos políticos é que eles são tratados como um todo homogêneo. Como se todos os partidos tivessem a mesma gêneses, lógica de funcionamento interno, a mesma linguagem, o mesmo discurso.
    É verdade, e merece crítica, que a democracia representativa tem seus limites e, sistemas que não possuem mecanismos sólidos de fidelidade partidária acabam por gerar inúmeras legendas de aluguel, privilegiando a política personaista (em detrimento da ideológica) e fazendo com que todos os partidos “sejam iguais”.
    A crítica correta seria, portanto, à essa lógica e à necessidade de fortalecimento das legendas ideológicas (tanto de esquerda quanto de direita).

    A outra problemática é a seguinte: ciência é ciência. Política é política. Não será a academia que irá produzir novas linguagens para a política. Ela poderá fazer análises, sugerir e propor idéias. Mas só por meio da política (e da correlação de forças sociais – o movimento estundatil como componente) é que mudanças poderão ocorrer. Um grave problema da academia é de fato o de ignorar que não basta uma boa idéia. É necessário que ela seja viável. E a política, como se diz por aí, é a “arte do possível”, não do ideal.

    Além disso, merece destaque a sua colocação sobre “grupos autônomos”.
    “No movimento estudantil que idealizo, haveria não um, mas vários grupos autônomos, com visões distintas sobre a universidade (porque há várias correntes de opinião entre os estudantes), confrontando suas visões, o que poderia se traduzir em alianças ou disputas programáticas conforme a questão.”
    “É claro que não há mal na convergência ideológica entre grupos autônomos e partidos; um grupo independente politizado necessariamente irá convergir com partidos sobre certas causas, empunhar algumas bandeiras em comum. O problema é quando essa convergência deixa de ser fruto da autonomia do grupo, e passa a ser refletida ou transmitida a partir do partido.”

    Ora, aqui você defende a existência de diversos grupos organizados em torno de uma determinadas concepções de universidade. Mas como você bem observa, há uma tendência de que, à medida que esses grupo aprofundam seus posicionamentos e visões, eles se partidarizem. Por quê? Porque um partido é exatamente “um grupo autônomo que com visões distintas sobre a sociedade (porque há várias correntes de opinião entre os indivíduos), confrontando suas visões, o que poderia se traduzir em alianças ou disputas programáticas conforme a questão”. A diferença está que o partido debate o conjunto da sociedade e não apenas a universidade (bom, um partido é mais que isso, mas tb se enquadra na sua definição).

    É importante se ter em mente que os partidos políticos são elementos fundantes de uma democracia representativa. Concordo que nosso sistema político precisa (urgentemente) ser aperfeiçoado. Mas não devemos fazer críticas genéricas e levianas a “partidos”, sob o risco de, sem querer, fazermos coro a teses autoritárias (o que não é o caso em tela).

    Aliás, saber que determinado indivíduo faz parte do partido A ou B, facilita por demais a crítica, pois consegue-se identificar seu local social, seus pressupostos, sua cosmovisão (de forma equivocada, às vezes, é verdade). Ao passo de que “ser independente” é bem mais cômodo, pois sua posição é individual e descomprometida.

    Agora, concordo com a sua crítica de que é ruim quando o posicionamento sobre determinado tema, que diz respeito à realidade local, parte de cima pra baixo (e não é formulado pelas pessoas que convivem diariamente com a realidade). Ora, a ocorrência disso vai depender muito mais da dinâmica interna de cada partido. O partido pode ser mais ou menos centralizador. Pode ter uma organização local ou não.

    Ditas todas essas coisas, falo um pouco da minha vivência: fui do movimento estudantil antes de ser filiada a um partido político. Durante o período em que fui parte da gestão do DCE (2003-04) tinha as mesmas dúvidas e me confrontei diversas vezes com esse “dilema”. Aliás, é impressionante como esse tema é recorrente: sempre há alguém que defende a idéia do autonomismo como algo novo (já li textos dos anos 30 sobre o tema). Encerrada a minha gestão e tendo perdido as novas eleições do DCE (já não estava mais em nenhuma entidade), decidi me filiar ao PT. Da gestão da qual participei, éramos na época quase todos “independentes” (apenas uma pessoa da gestão já era filiada a partido). Hoje, aqueles que continuam engajados politicamente (cada um em novos espaços: trabalho, mestrado, etc.) se filiaram a um partido (PT, PSOL, PDT).
    Continuei atuando da mesma forma que antes. A filiação foi apenas conseqüência de uma necessidade de aprofundar o debate, análise e ação política. A ação política não se faz de forma individual. Por isso, aqueles mais engajados tendem a sentir a necessidade de se organizar em algum grupo político. É algo tão legítimo quanto aqueles que, por inúmeras razões, preferem também continuar sem qualquer filiação partidária. Ambas opções estão contempladas pelo nosso modelo político: o direito de se organizar e o direito de permanecer sem organização. Ambos deem ser respeitados em um regime democrático.

  6. Carla Says:

    Gostaria de mencionar um trecho do seu texto que, no meu entedimento, resume os pressupostos do seu texto:
    “Comecei com uma reflexão talvez exageradamente abstrata sobre um ponto fundamental: sua linguagem – o que significa dizer: sua compreensão da realidade social. E afirmo que cabe à filosofia e à ciência enxergar novas formas de organização política e de discurso que fujam a esse anacronismo.”

    Ora, o grande problema do seu questionamento aos partidos políticos é que eles são tratados como um todo homogêneo. Como se todos os partidos tivessem a mesma gêneses, lógica de funcionamento interno, a mesma linguagem, o mesmo discurso.
    É verdade, e merece crítica, que a democracia representativa tem seus limites e, sistemas que não possuem mecanismos sólidos de fidelidade partidária acabam por gerar inúmeras legendas de aluguel, privilegiando a política personaista (em detrimento da ideológica) e fazendo com que todos os partidos “sejam iguais”.
    A crítica correta seria, portanto, à essa lógica e à necessidade de fortalecimento das legendas ideológicas (tanto de esquerda quanto de direita).

    A outra problemática é a seguinte: ciência é ciência. Política é política. Não será a academia que irá produzir novas linguagens para a política. Ela poderá fazer análises, sugerir e propor idéias. Mas só por meio da política (e da correlação de forças sociais – o movimento estundatil como componente) é que mudanças poderão ocorrer. Um grave problema da academia é de fato o de ignorar que não basta uma boa idéia. É necessário que ela seja viável. E a política, como se diz por aí, é a “arte do possível”, não do ideal.

    Além disso, merece destaque a sua colocação sobre “grupos autônomos”.
    “No movimento estudantil que idealizo, haveria não um, mas vários grupos autônomos, com visões distintas sobre a universidade (porque há várias correntes de opinião entre os estudantes), confrontando suas visões, o que poderia se traduzir em alianças ou disputas programáticas conforme a questão.”
    “É claro que não há mal na convergência ideológica entre grupos autônomos e partidos; um grupo independente politizado necessariamente irá convergir com partidos sobre certas causas, empunhar algumas bandeiras em comum. O problema é quando essa convergência deixa de ser fruto da autonomia do grupo, e passa a ser refletida ou transmitida a partir do partido.”

    Ora, aqui você defende a existência de diversos grupos organizados em torno de uma determinadas concepções de universidade. Mas como você bem observa, há uma tendência de que, à medida que esses grupo aprofundam seus posicionamentos e visões, eles se partidarizem. Por quê? Porque um partido é exatamente “um grupo autônomo que com visões distintas sobre a sociedade (porque há várias correntes de opinião entre os indivíduos), confrontando suas visões, o que poderia se traduzir em alianças ou disputas programáticas conforme a questão”. A diferença está que o partido debate o conjunto da sociedade e não apenas a universidade (bom, um partido é mais que isso, mas tb se enquadra na sua definição).

    É importante se ter em mente que os partidos políticos são elementos fundantes de uma democracia representativa. Concordo que nosso sistema político precisa (urgentemente) ser aperfeiçoado. Mas não devemos fazer críticas genéricas e levianas a “partidos”, sob o risco de, sem querer, fazermos coro a teses autoritárias (o que não é o caso em tela).

    Aliás, saber que determinado indivíduo faz parte do partido A ou B, facilita por demais a crítica, pois consegue-se identificar seu local social, seus pressupostos, sua cosmovisão (de forma equivocada, às vezes, é verdade). Ao passo de que “ser independente” é bem mais cômodo, pois sua posição é individual e descomprometida.

    Agora, concordo com a sua crítica de que é ruim quando o posicionamento sobre determinado tema, que diz respeito à realidade local, parte de cima pra baixo (e não é formulado pelas pessoas que convivem diariamente com a realidade). Ora, a ocorrência disso vai depender muito mais da dinâmica interna de cada partido. O partido pode ser mais ou menos centralizador. Pode ter uma organização local ou não.

    Ditas todas essas coisas, falo um pouco da minha vivência: fui do movimento estudantil antes de ser filiada a um partido político. Durante o período em que fui parte da gestão do DCE (2003-04) tinha as mesmas dúvidas e me confrontei diversas vezes com esse “dilema”. Aliás, é impressionante como esse tema é recorrente: sempre há alguém que defende a idéia do autonomismo como algo novo (já li textos dos anos 30 sobre o tema). Encerrada a minha gestão e tendo perdido as novas eleições do DCE (já não estava mais em nenhuma entidade), decidi me filiar ao PT. Da gestão da qual participei, éramos na época quase todos “independentes” (apenas uma pessoa da gestão já era filiada a partido). Hoje, aqueles que continuam engajados politicamente (cada um em novos espaços: trabalho, mestrado, etc.) se filiaram a um partido (PT, PSOL, PDT).
    Continuei atuando da mesma forma que antes. A filiação foi apenas conseqüência de uma necessidade de aprofundar o debate, análise e ação política. A ação política não se faz de forma individual. Por isso, aqueles mais engajados tendem a sentir a necessidade de se organizar em algum grupo político. É algo tão legítimo quanto aqueles que, por inúmeras razões, preferem também continuar sem qualquer filiação partidária. Ambas opções estão contempladas pelo nosso modelo político: o direito de se organizar e o direito de permanecer sem organização. Ambos deem ser respeitados em um regime democrático.

  7. Raphael Monteiro Says:

    “um grupo independente politizado necessariamente irá convergir com partidos sobre certas causas, empunhar algumas bandeiras em comum. O problema é quando essa convergência deixa de ser fruto da autonomia do grupo, e passa a ser refletida ou transmitida a partir do partido.”
    Os grupos políticos que não ligados diretamente a partidos e tem somente uma ligação de parceria com os partidos, com certeza não deixaram ser refém do centralismo ou de acordos com os partidos afim de unificar uma bandeira de luta. Mas acontece que existe uma tradição ruim no ME que os campos , grupos, teses para congresso estudantis devem estar ligadas ou ter referencia a partido político pois caso contrário seria anarquista ou autonomista (e com um significado pejorativo dos autonomistas, tipo os da Bolívia que são fascistas e e estão a serviço da oposição a Evo Morales). Na universidade infelizmente temos uma convivência problemática com os partidos políticos e com a Política, a com p maiúsculo mesmo . Temos os defensores do academicismo e do ” poder ” que emana do saber os quais não gostam do estilo tradicional do ME mas tem no seu método de fazer movimento, de fazer política uma diferente visão do intelectual orgânico do Gramsci . Os anarquistas , autonomistas e os ditos militantes políticos do ME tradicional ( se não mas em processo de filiação partidária ) .Entretanto a diferentes formas de participação política e o ME geralmente nunca consegue sair do feijão com arroz e deixar o movimento suprapartidário , infelizmente este vicio político é inserido no ME de diferentes formas pelas correntes políticas que estão dentro e fora da UNE . E respondendo a essa pergunta “Esta pergunta não se aplica somente ao movimento estudantil, penso que vale hoje para qualquer movimento sociopolítico: como fazer política – ou seja, engajar-se num projeto de transformação social – à margem da partidocracia? ” vou colar uma parte de um texto que escrevi , o qual copiei de caderno do Ibase , e este a seguir ” Conscientizar uma pessoa é ajuda-la a fugir da alienação e despertá-la para o uso da razão, dando-lhe condições para que perceba as exigências morais da natureza humana. E esse trabalho levará a caminhos participativos que se dividem geralmente em três formas , uma primeira que a participação política da juventude ocorre por meios que vão além do voto. Esse engajamento também se dá na atuação firme e direta em partidos políticos, organizações estudantis, conselhos, ONGs e movimentos sociais, ou seja, em instituições que organizam a sociedade e controlam a atuação dos governos. Uma segunda onde os jovens voluntários(as) ajudam a diminuir os problemas sociais. Realizam diferentes atividades, tais como manutenção de escolas, recreação com crianças pobres ou hospitalizadas, campanhas de doação de alimentos e diversas outras ações desse tipo. E uma terceira Nesse Caminho, os(as) jovens praticam e fortalecem o direito à livre organização. Eles(as) formam grupos culturais (esportivos, artísticos, musicais etc.), religiosos, de comunicação (jornal, página na Internet, fanzine etc.), entre outros, compartilhando idéias com outros(as) jovens.”
    com certeza é díficil escolher um partido político e se filiar, é meio com futebol vc gosta de ver e jogar mas o que faz ter vontade de torcer para um especificamente ? Essa analogia traz diferentes respostas e deixa uma margem no que entendo ser sua visão, gosto de futebol mas torcerei para ver um futebol bonito e não para um time .Enfim , espero que não se torne anarquista e odeie futebol kkkkk

  8. CONVERSAS COM O 666 - AO SOL : A PARTIDOCRACIA Says:

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